Prólogo a "Uma conversa com R. Murray Schafer" de Victor Flusser

© 2003, Carlos Alberto Augusto

2003, edição de Coimbra, Capital Nacional da Cultura

Todos nós conhecemos o som do vento. Ou melhor, conhecemos os efeitos audíveis da deslocação de correntes de ar através dos objectos, arestas, gumes e frinchas por onde este vai passando. Todos nós ouvimos e conhecemos bem o som destas "orquestras de sopros". Para a maior parte de nós a consciência deste som é levada na própria passagem do vento. La Monte Young, o compositor americano, ouvia o vento que atravessava as frinchas da cabana de madeira onde vivia em criança. Sons longos de frequência mais ou menos estável. R. Murray Schafer, o compositor, poeta e pedagogo canadiano, conta-nos que costumava escutar atentamente o vento e registar graficamente o que ia ouvindo. La Monte Young colheu desta sua experiência temporã de escuta do vento (à qual acrescentou uma outra mais tardia de escuta do som produzido pelos transformadores dos postos de distribuição de corrente eléctrica) a inspiração para as suas peças com ondas sinusoidais, longas, durando por vezes horas ou mesmo dias, que estiveram na origem do importante movimento minimalista na música. Schafer conta-nos que depois de registar esses sons do vento num papel se interrogava: se este registo fosse transformado numa "partitura", teria a "música" que dela resultasse algum valor? Ou "seria ela de tal maneira diferente da música ocidental, tal como a concebemos, que nos deixaria, simplesmente, entediados?" Não foi Anaxágoras de Clazómenes que referiu que "(...)uma vez que há, na pluralidade, igualdade na divisão do grande e do pequeno, pode haver também tudo em tudo?" Certamente, também no vento. O vento passa. Só precisamos de o escutar. O problema que Schafer coloca é, na verdade, muito simples. Trata-se da questão da nossa atitude actual perante o mundo.

Hoje entregamo-nos entusiasticamente ao estudo de áreas como a complexidade, a multiplexagem da informação ou o caos, áreas legítimas do conhecimento humano (os acústicos e os músicos muito devem a esses estudos!), capazes, naturalmente, de nos revelar importantes aspectos da realidade que nos rodeia. Face à nossa manisfesta inabilidade para lidar com a complexidade dos problemas por nós próprios suscitados, inventamos novas tecnologias para nos auxiliar. Alguns vão hoje ao ponto de advogar o uso de agentes potenciadores das nossas capacidades, nanomáquinas, um par de simples moléculas, que introduzidas no nosso organismo farão aproximar a nossa capacidade de processar informação da de um potente computador. Pensar mais e mais rápido, processar mais informação. É humano... A nossa espécie é única na sua capacidade de modificar o ambiente à sua volta. Outras espécies animais conseguem também alterar o seu ambiente envolvente, mas só os seres humanos parecem capazes de o alterar tão profundamente e, pasme-se, só eles parecem capazes de se transformar em vítimas dos seus próprios esforços. Enquanto nos vamos preparando para ingerir nanomáquinas com os flocos de cereais do pequeno-almoço da manhã, rodeados de LCD's, CRT's e redes sem fios, vamo-nos ao mesmo tempo fechando, colocando fora deste mundo, autoexilando. Presa dos nossos próprios processos. Vemos (distanciamo-nos) para crer, mas deixámos de ouvir (de nos aproximar) para entender. Já esquecemos porventura o muito que a ciência deve ao som. Nisto residirá porventura o essencial da mensagem de Schafer.

Schafer aborda estas e outras questões no seu livro "A Afinação do Mundo", em "O Ouvido Pensante" e mais publicações de leitura obrigatória para quem o queira compreender de modo mais aprofundado. Mas, a essência do seu pensamento está contida de forma exuberante nesta pequena edição de "Uma conversa com R. Murray Schafer" que Victor Flusser trouxe à estampa e Coimbra, Capital Nacional da Cultura 2003 decidiu editar no âmbito do projecto "Coimbra Vibra!".

Convidámos R. Murray Schafer -o mesmo que introduziu princípios de pedagogia musical hoje postos correntemente em prática pelos quatro cantos do mundo, o criador do conceito de paisagem sonora que nos levou a encarar o ambiente sonoro que nos rodeia como se de uma grande composição musical colectiva se tratasse, o compositor que parte todos os anos acompanhado por um grupo de músicos e não-músicos para a Haliburton Forest and Wildlife Reserve, uma zona selvagem do Ontário, para com eles recriar "Patria Epilogue: And Wolf Shall Inherit the Moon", peça auto financiada e voluntariamente auto perpetuada, concebida e executada num ritual colectivo que dura oito dias- para ser responsável pelo "Coimbra Vibra!", este projecto emblemático de Coimbra, Capital Nacional da Cultura. Um projecto que constitui uma estratégia para que todos, cidadãos, artistas, autarcas, professores e estudantes possamos perguntar: que Coimbra queremos? Estaremos dispostos a ouvir para entender ou queremos apenas continuar a ver para crer?

Apesar da seriedade e da gravidade das questões que o pensamento de Murray Schafer equaciona, a sua tónica é a de um enorme humanismo e de um profundo optimismo. Enquanto para muitos o futuro se pinta com cores escuras, envolto em fumos negros e preso em crateras medonhas, para Schafer o futuro assemelha-se ao seu sorriso bondoso, o mesmo sorriso que envolveu esta conversa, como nos conta Victor Flusser, que com Schafer desenvolve este projecto "Coimbra Vibra!". Coimbra irá pois vibrar com R. Murray Schafer. Com alegria.

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